A apelação do Ministério Público com fundamento na “decisão manifestamente contrária à prova dos autos” e o quesito genérico no tribunal do júri

Autores

DOI:

https://doi.org/10.18759/rdgf.v26i2.2271

Palavras-chave:

Tribunal do júri. Reformas Processuais Penais. Soberania dos vereditos., Constitucionalismo. José de Alencar. Tribunal do Júri., Reformas processuais penais, Soberania dos vereditos

Resumo

O presente artigo discute o instituto processual penal do tribunal do júri, tendo como objetivos investigar o nível de permeabilidade inquisitória ligado a esse procedimento no Brasil e em que medida a reforma na quesitação do tribunal do júri de 2008 reaproximou o modelo brasileiro do norte-americano. Através de pesquisa de cunho bibliográfico com abordagem do tipo qualitativo, partindo de uma análise historiográfica dos processos de “ruptura” e “permanência” de categorias, conceitos e da cultura jurídica, investiga-se como o pessimismo e desconfiança em torno da decisão do jurado culminaram com reformas processuais que comprometeram a estrutura do júri brasileiro, analisando-se, ainda, o sistema recursal próprio das experiências francesa e norte-americana no tribunal do júri. Em conclusão, verificou-se que as recentes discussões dogmáticas em nosso país, como a da (im)possibilidade de conhecimento do recurso ministerial fundado no artigo 593, III, “d” do CPP, parecem sinalizar para o afastamento do tribunal do júri brasileiro das matrizes do modelo francês, aderindo a uma soberania dos vereditos alargada ou mantendo definitivamente um “júri tutelado”, onde o princípio da soberania dos vereditos é direito fundamental do réu, carecendo de possibilidade de interpretação restritiva de seu âmbito de proteção.

Palavras-chave: Tribunal do júri. Reformas Processuais Penais. Soberania dos vereditos.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Biografia do Autor

Felipe Giacomolli, Faculdades Integradas São Judas Tadeu

Mestre em Ciências Criminais, com bolsa CAPES, pela PUCRS. Especialista em Direito Penal Empresarial pela PUCRS. Pós-Graduado em Garantias Constitucionales del Proceso Penal pela UCLM-Toledo. Professor da Faculdade de Direito São Judas Tadeu em Porto Alegre.

Ricardo Jacobsen Gloeckner, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul

Pós-Doutor em Direito pela Università Federico II. Doutor em Direito pela Universidade Federal do Paraná. Mestre em Ciências Criminais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências Criminais da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.

Referências

BALL v. United States 163 U.S 662, 16 S.Ct 1192, 41 L.Ed 300 (1896).

BINDER, Alberto. Cítica a la Justicia Profesional. In Revista de Derecho Penal. A. 1. N. 3, 2013.

BROOKS, Thom. A Defence of Jury Nullification. In Res Publica, v. 10, 2004.

BROWN, Darryl K. Jury Nullification and the Rule of Law. In Minnesota Law Review. n. 81, 1997.

BURKS v. United States 437 U.S 1, 98 S.Ct. 2141, 57 L.Ed.2d 1 (1978).

CÂMARA DOS DEPUTADOS. Projeto de Lei n. 4.203, de 12 de março de 2001.

CAMPOS, Francisco. Exposição de Motivos da Lei 167/1938. In Revista Forense, Janeiro 1938.

CAMPOS, Francisco. Exposição de Motivos do Código de Processo Penal Brasileiro.

CARNOT, Joseph François Claude. De L’instruction Criminelle Considerée Dans Ses Rapports Généraux et Particuliers. v. 3. 3 ed. Bruxelles: P.J de Mat, 1831

CASTRO, Kátia Duarte. O Júri Como Instrumento do Controle Social. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris, 1999.

CAVALCANTE SEGUNDO, Antonio de Holanda; SANTIAGO, Nestor Eduardo Araruna. Íntima Convicção, Veredictos dos Jurados e o Recurso de Apelação Com Base na Contrariedade à Prova dos Autos: necessidade de compatibilidade com um processo de base garantista. In Revista Brasileira de Ciências Criminais. v. 116. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2015.

CORDERO, Franco. Guida Alla Procedura Penale. Torino: UTET, 1986.

CORTEZ DOMINGUEZ, Victor; MORENO CATENA, Victor. Derecho Procesal Penal. Valencia: Tirant lo Blanch, 2004

CRUZ, Rogerio Schietti Machado. A Proibição da Dupla Persecução Penal. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2008.

CRUZ, Rogerio Schietti Machado. Garantias Processuais nos Recursos Criminais. 2ed. São Paulo: Atlas, 2013.

DENNIS, Ian. The Auld Review: part 2. In Criminal Law Review, 2002.

DEZEM, Guilherme Madeira. Curso de Processo Penal. 3 ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2017.

DOTTI, René Ariel. A Reforma do Procedimento do Júri. In TUCCI, Rogério Lauria. Tribunal do Júri: estudo sobre a mais democrática instituição jurídica brasileira. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1999.

DOTTI, René Ariel. Esboço Para a Reforma do Júri. In Revista Brasileira de Ciências Criminais. v. 1. n. 3. São Paulo, 1993.

FISSELL, Brenner M. Jury Nullification and the Rule of Law. In Legal Theory. n. 217, 2013.

FORTI, Iorio Siqueira D’Alessandri. O Tribunal do Júri Como Garantia Fundamental, e Não Como Mera Regra de Competência: uma proposta de reinterpretação do art. 5.º,XXXVIII, da Constituição da República. In Revista Eletrônica de Direito Processual. A 3. vol. 3. Rio de Janeiro, 2009.

FRANCO, Ary Azevedo. O Júri e a Constituição Federal de 1946. 2 ed. Rio de Janeiro: Forense, 1956.

GLOECKNER, Ricardo Jacobsen. Autoritarismo e Processo Penal: uma genealogia das ideias autoritárias no processo penal brasileiro. Florianópolis: Tirant lo Blanch, 2018.

GRANDE, Elisabetta. Imitação e Direito: hipóteses sobre a circulação dos modelos. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris, 2009.

GREGORI, José. Reforma do Código de Processo Penal. Projeto de Lei 4.203/01 (tribunal do júri). In CALMON FILHO, Pedro. Reformas Legislativas: Constituição Federal, Código de Processo Civil, Código de Processo Penal. São Paulo: Instituto de Direito Processual, 2001.

GREEN v. United States 355 U.S 184, 78 S.Ct 221, 2 L.Ed.2d 199 (1957)

GRINOVER, Ada Pellegrini. A Democratização dos Tribunais Penais: participação popular. In Revista de Processo, São Paulo, v. 13, n. 52, 1988.

JARDIM, Eliete Costa Silva. Tribunal do Júri: absolvição fundada no quesito genérico: ausência de vinculação à prova dos autos e irrecorribilidade. In Revista da Emerj. v. 18.n. 67, 2015.

HÉLIE, Faustin. Traité de L’Instruction Criminelle ou Théorie du Code D’Instruction Criminelle. v. 8-9. Paris: Charles Hingray, 1860.

HENDLER, Edmundo. El Juicio por Jurados: significados, genealogías, incógnitas. Buenos Aires: Del Puerto, 2006.

KALVEN JR, H; ZEISEL, H. The American Jury. Boston: Little, Brown & Co, 1966.

LAFAVE, Wayne R; ISRAEL, Jerold H. Criminal Procedure. 2 ed. Saint Paul: West Publishing, 1992.

LIMA, Alcides de Mendonça. Júri: instituição nociva e arcaica. In NUCCI, Guilherme de Souza; MOURA, Maria Thereza Rocha de Assis. Doutrinas Essenciais: processo penal. v. IV. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2012.

LIMA, Carolina Alves de Souza. O Princípio Constitucional do Duplo Grau de Jurisdição. Barueri: Manole, 2004.

LONGHI, Silvio. Scritti Teorico-Pratici Sulla Nuova Legislazione Penale Italiana. v. I. Bologna: Zanichelli, 1932.

LYRA, Roberto. O Júri Sob Todos os Aspectos. Rio de Janeiro: Editora Nacional de Direito, 1950.

MAGARINOS TORRES, José Eugenio. Processo Penal do Jury no Brasil. Rio de Janeiro: Livraria Jacyntho, 1939.

MAIER, Julio B. La impugnácion del acusador: un caso de ne bis in idem? In Nuevo Foro Penal. n. 61, p. 169-175, agosto 1999.

MARDER, Nancy S. the Myth of the Nullifying Jury. In Northwestern University Law Review. n. 03, v. 93, 1999.

MASSARI, Eduardo. Il Processo Penale Nella Nuova Legislazione Italiana. Napoli: Eugènio Jovene, 1934.

MATIDA, Janaína; MOSCATELLI, Lívia. Justiça Como Humanidade na Construção de uma Investigação Preliminar Epistêmica. In Consultor Jurídico, 14 de agosto de 2020.

MENDES, Tiago Bunning. Direito ao Recurso no Processo Penal: o duplo grau de jurisdição como garantia exclusiva do imputado. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2019.

MENDONÇA, Andrey Borges de. Nova Reforma do Código de Processo Penal: comentada artigo por artigo. São Paulo: Método, 2008.

NARDELLI, Marcella Mascarenhas. A Prova no Tribunal do Júri: uma abordagem racionalista. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2019.

NASSIF, Aramis. O Júri Objetivo. 2 ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2001.

NOBILI, Massimo. Il Principio del Libero Convincimento del Giudice. Milano: Giuffrè, 1974.

OLIVEIRA, Olavo. Exposição de Motivos à Lei 263, de 23 de fevereiro de 1948.

O’DWYER, Edson Freire. Modificações no Procedimento do Júri. In Revista do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária. v. 1. n. 3, 1994

OLIVEIRA, Olavo. O Júri na Terceira República. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1949.

PENTEADO, Jaques de Camargo. Duplo Grau de Jurisdição no Processo Penal: garantismo e efetividade. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2006.

PORTO, Hermínio Marques. Júri: procedimentos e aspectos do julgamento: questionários. 11 ed. São Paulo: Saraiva, 2005.

PRADO, Geraldo. Duplo Grau de Jurisdição no Processo Penal Brasileiro: homenagem as ideias de Julio B. Maier. In: BONATO, Gilson. Direito Penal e Direito Processual Penal: uma visão garantista. Rio de Janeiro: Lumen Iuris, 2001.

SBRICCOLI, Mario. Le Mani nella Pasta e Gli Occhi al Cielo: la penalistica italiana negli anni del fascismo. In Quaderni Fiorentini per la Storia del Pensiero Giuridico Moderno. v. 28. t. II. Milano: Giuffrè, 1999.

SCHEFLIN, Alan; VAN DYKE, Jon. Jury Nullification: the right to say no. In Southern California Law Review. n. 45. v. 168, 1972.

SHÜNEMANN, Bernd. La Reforma del Proceso Penal. Madrid: Dykison, 2005.

SCHWARTZMANN, Simon (org.). O Estado Novo, Um Auto-Retrato. Brasília: UnB, 1983.

SIRACUSANO, Defino. Introduzione Allo Studio del Nuovo Processo Penale. Milano: Giuffrè, 1989.

SILVA, Rodrigo Faucz Pereira e; AVELAR, Daniel Ribeiro Surdi de. Manual do Tribunal do Júri. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2020.

SILVA, Walter Nunes da. Tribunal do Júri e as Modificações Propostas. In Revista dos Tribunais. v. 84. n. 720. São Paulo, 1995.

REZENDE, Guilherme Madi. Júri: decisão absolutória e recurso da acusação por manifesta contrariedade à prova dos autos – Descabimento. In Boletim do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais. n. 207, 2010.

ROYER, Caisa E. The Disobedient Jury: why lawmakers should codify jury nullification. In Cornell Law Review. n. 102, 2017.

SONTAG, Ricardo. “A Eloquência Farfalhante da Tribuna do Júri”: o tribunal popular e a lei em Nelson Hungria. In Revista História. n. 28. v. 2. São Paulo, 2002.

STOCO, Rui. Tribunal do Júri e o Projeto de Reforma de 2001. In Revista Brasileira de Ciências Criminais. n. 36. A. 9. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2001.

TASSE, Adel El. Tribunal do Júri. Curitiba: Juruá, 2007.

TOURINHO FILHO, Fernando da Costa. Processo Penal. v. 4. 30 ed. São Paulo: Saraiva, 2008.

TUBENSCHLAK, James. Tribunal do Júri: contradições e soluções. São Paulo: Saraiva, 1997.

United States v. Scott, 437 U.S. 82, 98 S. Ct. 2187, 57 L. Ed. 2d 65, 1978 U.S. LEXIS 109 (U.S. June 14, 1978).

VAN DYKE, Jon M. The Jury as a Political Institution. In The Catholic Lawyer. n. 3. v. 16, 1970.

VASSALLI, Giuliano. Introduzione. In GARLATI, Loredana. L’Inconscio Inquisitorio: l’eredità del Codice Rocco nella cultura processualpenalistica italiana. Milano: Giuffrè, 2010.

VELASCO, Pilar de Paúl. El Tribunal del Jurado desde la psicología social. Madrid: Siglo XXI, 1995.

VELLOZO, Athos Moraes de Castro. Limitações à Soberania do Júri. Tese de Concurso à Cátedra de Direito Judiciário Penal da Universidade do Paraná, 1952.

WADE v. Hunter, 336 U.S 684, 69 S.Ct.834, 93 L.Ed 974 (1949).

Downloads

Publicado

2026-01-11

Como Citar

Giacomolli, F., & Jacobsen Gloeckner, R. (2026). A apelação do Ministério Público com fundamento na “decisão manifestamente contrária à prova dos autos” e o quesito genérico no tribunal do júri. Revista De Direitos E Garantias Fundamentais, 26(2), 101–152. https://doi.org/10.18759/rdgf.v26i2.2271